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Adeus aos amigos

Como se diz, a política mobiliza o que há de pior nas pessoas. Não é preciso ser um Leonardo de Vinci para ver isso. Basta ir a uma simples reunião de condomínio, especialmente em dia de eleição de síndico, quando todas as fofocas e maledicências chegam ao cume e fazem lembrar da erupção do Krakatoa, em 1887.

Há esse lado terrível, em que as máscaras dão as caras. Mas, se houver senso de humor, ao menos no fórum predial podemos até achar tudo muito divertido, principalmente se a vizinha de porta se engalfinhar com o solteirão do segundo andar. O problema é quando a discussão extrapola o edifício, onde a proximidade dos inquilinos exige certo trato para evitar que tudo descambe para um combate de WWE.

Nesta altura, à reunião de condomínio eu só vou se a chaminé da churrasqueira estiver obstruída e eu precisar dela para o churrasco do meu aniversário. Algo parecido digo da política partidária.

Agora eu só entro no debate se sentir que preciso, mesmo assim quase sempre em termos civilizados, pra evitar perder a razão e ficar escravo do ódio. Não que a minha voz conte muito. Mas um artigo aqui, uma pitada de ironia ali, e vamos tocando a vida, embora seja rude de ver.

Me faz mal, por exemplo, ver alguns de meus amigos de juventude, gente que admirava Truffaut e Morricone, agora declarando apoio a candidatos toscos com passados de fazer corar o assaltante do trem pagador. E mais: babando como dobermanns raivosos contra os oponentes do seu fofo bandido de estimação. Aonde foram parar a sensibilidade e o discernimento dos velhos tempos?

Eles não são o Scooby-doo, mas vale perguntar: Cadê vocês?

Dizem que a polarização política afasta amigos e familiares. Pois eu ando achando que na verdade eu e alguns amigos e parentes nunca estivemos juntos de verdade, que nunca houve real afinidade entre nós. Que a radicalização apenas revelou diferenças pregressas. Venho achando que, quando éramos jovens, o que nos unia era apenas uma cortina de fumaça para encobrir o medo de sermos sozinhos numa época em que precisávamos de validação.

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A passagem do tempo parece mesmo afastar as pessoas, algumas pelo menos, às vezes para nunca mais.

* Cena do filme Jules e Jim, de Truffaut

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